A baixa presença de barragens e pequenos barramentos na Bacia do Alto Paraguai faz com que o pintado (surubim) encontre no Pantanal um cenário mais favorável para se desenvolver, com menor risco de colapso populacional quando comparado a outras regiões do país. O alerta, porém, é que a espécie segue vulnerável a novos fatores de pressão — especialmente a introdução de híbridos, que pode comprometer a genética das populações naturais.
As discussões foram apresentadas durante um evento técnico realizado em Campo Grande, dentro da programação da COP15, conferência da ONU voltada à conservação de espécies migratórias. No encontro, pesquisadores compararam o pintado à onça-pintada, tanto pelo padrão de manchas quanto pelo papel ecológico: trata-se de um dos principais predadores de rios de água doce e tem alto valor para pesca e cadeia econômica ligada ao pescado.
Dados e documentos discutidos indicam queda do pintado em outras bacias brasileiras, como Alto e Baixo Paraná e Rio São Francisco, onde a presença de barragens é maior e tende a alterar o fluxo natural dos rios. Especialistas explicam que barramentos impactam diretamente as rotas migratórias e a sincronização reprodutiva do peixe, porque controlam vazões e reduzem a dinâmica de inundação — um elemento associado ao ciclo de vida da espécie.
No Pantanal, a dinâmica de cheias e vazantes ainda ocorre com mais regularidade em vários trechos, o que favorece a manutenção das populações nos rios do Paraguai e afluentes. Ainda assim, o cenário não é de tranquilidade: o risco mais apontado é a presença de exemplares híbridos, resultado de cruzamentos artificiais feitos para produção em escala e comercialização. O temor é que esses peixes escapem, se reproduzam e provoquem introgressão genética (mistura de material genético) em populações selvagens — um processo que pode reduzir a resiliência da espécie no longo prazo.
Além dos híbridos, foram citadas outras ameaças: erosão genética por redução populacional (com maior chance de cruzamentos entre indivíduos aparentados), poluição associada ao uso inadequado de agrotóxicos e a drenagem de lagoas marginais, que servem como habitats essenciais.
A espécie ocorre em cinco países (Brasil, Bolívia, Paraguai, Argentina e Uruguai) e deve entrar em discussão internacional na COP15 para possível inclusão no Anexo II da Convenção, mecanismo que busca ampliar cooperação entre países sem necessariamente proibir a pesca. O pintado já é reconhecido como espécie ameaçada no Brasil e classificado como vulnerável em norma do Ministério do Meio Ambiente.












