A escalada do conflito no Oriente Médio já começa a chegar ao campo em Mato Grosso do Sul. Com o Estreito de Ormuz funcionando como um gargalo logístico global, aumentaram os custos de frete, seguro marítimo e prêmios de risco — efeito que, na prática, encarece a reposição de fertilizantes e tende a pressionar a formação de custos da safra de verão 2026/2027, principalmente de soja e milho.
O alerta de especialistas é direto: embora parte dos produtores já tenha travado compras, aproximadamente 60% dos insumos para o próximo ciclo ainda devem ser adquiridos sob preços elevados. Isso reduz a margem do produtor, piora a relação de troca (insumo x grão) e pode ter reflexos sobre o preço final dos alimentos ao longo do próximo ano, caso o ambiente de alta persista.
Um dos pontos mais sensíveis é a ureia, fertilizante nitrogenado que teve forte valorização desde a intensificação do conflito. Boletins de consultorias do setor apontam que o aumento foi expressivo no curto prazo e também relevante na comparação anual, em um momento em que a oferta internacional sofre ruídos adicionais, inclusive por restrições de exportação da China para priorizar o abastecimento interno.
Em Mato Grosso do Sul, o impacto tende a ser mais forte na soja 2026/27, cujo plantio normalmente começa entre o fim de setembro e o início de outubro. Analistas lembram que parte do fertilizante já foi comprado, dentro do padrão histórico de antecipação, mas o produtor não consegue postergar indefinidamente: chega um momento em que é preciso fechar negócio para garantir entrega na fazenda antes do plantio, mesmo que os preços estejam acima do esperado.
Além do conflito, há um fator estrutural reforçando o estresse do mercado: o Oriente Médio é uma das regiões-chave na produção e exportação de nitrogenados, com alta dependência do gás natural — insumo que também fica mais caro em cenários geopolíticos instáveis. Esse conjunto aumenta a volatilidade e amplia o risco de aperto de oferta justamente no período em que o mundo começa a se posicionar para a próxima temporada.
Navios parados, risco logístico e peso do Oriente Médio nas importações
Relatos do setor indicam navios aguardando na região com grandes volumes de fertilizantes (ureia, fosfatados e enxofre), o que aumenta o risco de atraso e encarece a logística. O Oriente Médio tem participação relevante nas importações brasileiras de fertilizantes e abastece o mercado interno por meio de grandes tradings e fornecedores globais que atuam da originação até a distribuição no país.
Os preços também variam por produto. O choque recente aparece mais forte nos nitrogenados (caso da ureia), enquanto outros itens podem reagir por efeito indireto (enxofre e ácido sulfúrico pressionando fosfatados). Já o potássio tende a ter dinâmica própria, com menor impacto imediato do conflito.
Efeito na safra atual é menor; risco está em 2026/27
Para a safra que já está em campo, especialmente o milho de segunda safra (safrinha), o impacto tende a ser mais limitado em Mato Grosso do Sul porque grande parte dos fertilizantes foi comprada antes do salto recente de preços. O problema maior se concentra no próximo ciclo, quando o produtor ainda precisa fechar a maior fatia dos insumos.
Custo do agro e atividade econômica
Relatórios econômicos também indicam que a alta do petróleo — frequentemente associada a tensões no Oriente Médio — encarece transporte e insumos, pressionando o custo da agropecuária. A leitura é que o cenário para 2026 pode trazer maior volatilidade e necessidade de gestão de risco mais ativa no campo. Ainda assim, parte do dinamismo regional pode ser sustentada por segmentos industriais do Estado, como celulose e etanol, que ajudam a amortecer oscilações do agro.












