O cenário comercial na América do Sul sofreu uma grande reviravolta nos primeiros meses do ano. A Argentina voltou a ter a China como sua principal fornecedora de produtos, desbancando o Brasil do topo do ranking.
De acordo com dados oficiais do Indec (Instituto Nacional de Estadística y Censos da Argentina) referentes ao período de janeiro a maio, as importações vindas do mercado chinês superaram as compras de produtos brasileiros em US$ 333 milhões.
A “Motosserra” De Milei E O Impacto No Comércio Bilateral
A mudança radical no perfil de consumo argentino é reflexo direto das medidas econômicas adotadas pelo presidente Javier Milei:
- Corte de Subsídios: A retirada de incentivos governamentais em tarifas de luz, gás e transporte público pesou diretamente no bolso das famílias.
- Encargo com Gastos Essenciais: O fim do controle de preços em setores como os planos de saúde fez a classe média priorizar despesas básicas e adiar a compra de bens supérfluos.
- Queda nas Vendas: A combinação de juros altos, inflação e renda comprometida fez com que as vendas de automóveis e comerciais leves caíssem 10,5% no primeiro semestre em comparação ao mesmo período anterior.
Invasão Dos Carros Elétricos E Retração Da Indústria Brasileira
O setor automotivo — que historicamente lidera as trocas comerciais entre Brasil e Argentina — foi um dos mais afetados. Enquanto a demanda por veículos tradicionais despencou, os modelos chineses ganharam terreno impulsionados por isenções fiscais de até 50 mil veículos eletrificados com imposto de importação zero liberadas pelo governo argentino.
- Avanço Chinês: Segundo a associação de concessionárias argentina (Acara), marcas chinesas já representam mais de 9% dos veículos comprados no país, sendo que 1 em cada 5 carros importados atualmente vem da China.
- Perda de Espaço do Brasil: Dados divulgados pela Anfavea (Associação Nacional dos Fabricantes de Veículos Automotores) mostram que, em apenas um ano, a fatia dos carros brasileiros no total importado pela Argentina caiu drasticamente de 82% para 56%.
- Queda nos Embarques: As exportações de veículos do Brasil para o país vizinho despencaram 35,4% no primeiro semestre, totalizando apenas 106 mil unidades.
O Que Dizem Os Especialistas
“A alta de preços de veículos e combustíveis favoreceu as montadoras chinesas. Trazer a produção para o Brasil e países vizinhos virou uma alternativa às barreiras tarifárias impostas pelos EUA e pela Europa. A internacionalização se tornou uma necessidade pelo excesso de capacidade de produção na China. Em três anos, saímos de um mercado praticamente dominado por marcas tradicionais para um ‘tsunami chinês’.”
— Rogélio Golfarb, consultor e ex-presidente da Anfavea (2004-2007).
Fonte dos dados: Indec (Argentina), Acara (Argentina), Anfavea (Brasil) | Reportagem original: Jornal de Brasília.
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